
Lula já tem seu blog, publicado há poucos dias como parte da estratégia para posicionar a imagem do presidente e do governo federal nas redes sociais. Uma ação previsível, alinhada com o novo marketing político, que cada vez mais utilizará a internet como plataforma de comunicação e interação com o eleitor.
É o “efeito Obama”, que começa a tirar a classe política de uma arrogante letargia em relação ao poder da Web como ambiente de formação e compartilhamento de opiniões. Obama garantiu sua eleição usando a força de mais de 30 mil comunidades online e conseguiu, entre outros feitos, arrecadar mais de 500 milhões de dólares pela internet. Tudo didaticamente articulado e orientado pelo competente Ben Self, dono da agência Blue State Digital, contratada para fazer a campanha online de Obama.
Ben Self esteve no Brasil há poucos dias proferindo palestras e flertando com os marqueteiros dos presidenciáveis Dilmas Roussef e José Serra, em busca de um bom contrato de consultoria para as próximas eleições. O que se ouve por aí é que o estrategista online de Obama tende a alojar sua equipe no Palácio do Planalto, à serviço da campanha de Dilma.
Mas voltando ao blog do Lula, após uma instabilidade inicial na largada por excesso de visitantes, fomos eu e todos os internautas que se dispuseram a conhecê-lo pegos de surpresa com a impossibilidade de se postar comentários sobre as notícias e opiniões publicadas. Inicialmente achei que fosse um problema técnico, até que recebi a informação que, realmente, não permitir comentários foi uma decisão dos responsáveis pelo blog. A esta altura pouco importa saber o porquê desta decisão, tendo em vista o quanto ela é equivocada.
Evidentemente era só uma questão de tempo para começar o bombardeio dos internautas ao blog do presidente, que se transfromou de ferramenta de comunicação em saco de pancada online, um verdadeiro modelo vivo de como não se construir uma relação interativa e horizontal na rede.
De forma criativa e oportuna, os jornalistas Pedro Markun e Daniela Silva, de São Paulo, criaram inclusive um clone do blog do Lula, com a providencial diferença de permitir comentários. Foi, sem dúvida, uma bela jogada de marketing promocional visando divulgar uma agência de comunicação política criada pelos dois jornalistas, mas que serve para mostar a obviedade do equívoco cometido pela equipe de comunicação do presidente.
Um blog que não permite comentários é a não compreensão mínima dos conceitos elementares ligados às novas formas de comunicação em rede. Para facilitar a ilustração das mentes analógicas que tomaram esta decisão, é o mesmo que uma rádio só com locutores, sem comentaristas, repórteres e ouvintes, na medida em que a maior virtude dos canais online é dar aos usuários, em tempo real, o poder de audiência, mediação, autoria e crítica.
Mas o pior ainda está por vir, pois o blog é parte de um processo de inserção da imagem de Lula nas redes sociais que prevê, em breve, sua participação em outros canais e comunidades. Fico imaginando que novas idéias geniais os criativos do Planalto darão ao presidente. Talvez um perfil no Twitter que só tenha seguidores e que não siga ninguém. Ou a proibição no Facebook de curtir um comentário. No Orkut, talvez, impedir o uso de scraps. Enfim, de quem cria e defende um blog sem comentários, tudo se pode esperar.
Realmente este fato revela muito mais que um erro estratégico ou uma falta de percepção contextual de quem coordena este projeto de marketing online para o presidente Lula. Governos e políticos invariavelmente não tem a menor idéia do que fazer na internet e muito menos como fazer. O poder público traz um péssimo histórico de utilização dos meios de comunicação. É a cultura da informação chapa branca, vertical, onde reina o proselitismo movido pela vaidade e pela conversa fiada de assessores e marqueteiros. E onde muito pouco importa a opinião das pessoas.
Com a internet, obviamente esta cultura está fadado a acabar. As novas formas de comunicação ensinam claramente que o eixo de diálogo na rede é horizontal, interativo e cada vez mais livre e democrático. Fechar, proibir, impedir ou dificultar o direito de cada cidadão a fazer uso das ferramentas online para emitir opiniões, produzir informações e interagir com seus pares é o meio mais rápido para se perder credibilidade, audiência e relevância.
Com a devida humildade, sugiro ao presidente Lula que dê uma espiada diária no clone do seu blog criado pelos dois jovens jornalistas de São Paulo. E que preste muita atenção nos comentários dos internautas. Acredite presidente, nada é mais importante que isso para se configurar uma boa estratégia de marketing político nas internet. O resto, em bom e velho jargão jornalístico, é balela.
Ben Self, estrategista online de Obama e cada vez mais perto da campanha de Dilma Roussef, bem que poderia dar umas dicas aos blogueiros de Lula..

Escrito por Roberto Andrade 
Escrito por Roberto Andrade 
Escrito por Roberto Andrade 



