O Ponto Cego

cegueira

Há um espaço invisível de mundo para quem dirige um automóvel chamado popularmente de ponto cego. Fica na parte traseira do carro, do lado oposto ao motorista. É um ponto impossível de ser visto no espelho retrovisor, mesmo se for feita a arriscada manobra de virar a cabeça para trás. Neste espaço reina a imaginação projetada e a insegurança.
Mas a expressão ponto cego se origina, de fato, a partir de uma curiosa falha em nosso campo visual. Todos os seres vertebrados com exceção dos cefalópodes – popularmente conhecidos como a lula e o polvo – apresentam um ponto na área de visão onde faltam células fotorreceptoras. Sei disso não por conta do Google, mas sim pela Enciclopédia Barsa, onde aprendi a ler e me divertir olhando todo tipo de bizarrices da natureza. Esta foi uma das que mais me chamou a atenção, a ponto de nunca ter esquecido.
Nesta região da visão a luz não é captada pelo nervo óptico e a imagem não se forma. Terminamos então “imaginando a imagem”, a partir de informações cerebrais e com o generoso apoio de nosso outro olho, onde o tal ponto cego está em outro local.
Não creio que existam dados precisos do quanto o ponto cego humano ou o do automóvel representam de perigo em nossas vidas, mas não é exagero supor que muitos acidentes são gerados por este traiçoeiro limite da visão. Um dia prometo aprofundar a pesquisa sobre o tema. Neste momento trata-se de mera analogia.
Na verdade a referência ao ponto cego serve como paralelo a uma situação que estou acompanhando com especial interesse dentro das plataformas e ferramentas online de comunicação, simploriamente chamadas de redes sociais. Temos nestas redes um inequívoco ponto cego, também invisível e tremendamente perigoso para quem escreve, publica ou lê conteúdos pela internet.
O ponto cego no mundo online permite, por exemplo, que opiniões se transformem em sentenças numa velocidade estonteante. De forma rasa, cruel e quase sempre descontrolada, boa parte dos usuários conectados percorrem letras, palavras e frases sem conseguir visualizar o que há de mais importante em um texto: a riqueza e o sentido das ideias. Na maior parte das vezes isto se dá porque o que é publicado realmente não tem mesmo nenhum sentido.
Surgem então o que chamo de cegueira virtual, que gera acidentes de percurso cada vez mais graves nos espaços de relacionamento e compartilhamento online, bombardeados 24hs por dia por palavras e frases soltas, quase sempre vitimadas pela vulgaridade.
Não saberia dizer se este ponto cego virtual é fruto da falta de tempo das pessoas, da pouca informação ou conhecimento dos fatos, ou se é apenas o resultado de mudanças drásticas nos modelos da cultura coletiva e da comunicação em rede. O mais provável é que seja tudo ao mesmo tempo.
O que percebo são pessoas cada vez menos atentas ao que escrevem e menos ainda ao que leem, disseminando quase sempre conteúdos rasos, desprovidos de fundamento e pobres em sentido e relevância. Empolgados com suas poderosas ferramentas de publicação, estes novos atores da comunicação terminam envoltos em ideias com baixíssimo índices de aprofundamento intelectual, técnico, teórico ou humano.
Mesmo alguns amigos ou conhecidos que, tenho certeza, renderiam maravilhosos debates em uma mesa de bar, nas redes sociais me parecem estar resignados a confirmação dos princípios dogmáticos do sim e do não, da verdade e da mentira, do certo e do errado, do verdadeiro ou falso. Também a auto-estima me parece não ser um ativo vigoroso no mundo online, tamanha a necessidade das pessoas em buscar pela internet afirmação e aplausos, baseado sempre no que dizem, nunca no que pensam ou fazem.
Esta superficialidade chega a extremos de esquizofrenia quando as pautas rondam os temas da política, da religião e do futebol. Neste casos o ponto cego ocupa quase todos os raciocínios e espaços, levando as timelines de gente séria muitas vezes à beira do ridículo, quando analisadas com um mínimo de sentimento crítico.
Mas como sou otimista, seja no trânsito, na ciência óptica ou nas plataformas online de comunicação, quero crer que tudo depende da capacidade de visão do autor e da perspicácia do receptor, virtudes ainda construídas no chamado mundo offline, também conhecido como vida real.

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5 Responses to O Ponto Cego

  1. O Beto Andrade conseguiu (como sempre), de uma maneira focada e objetiva, porém repleta de detalhes ressaltar o literalmente “ponto cego” que envolve não so’ os usuários das redes sociais, mas como a maioria dos que nos cercam no dia a dia pelo MUNDO afora, desde o balcão do bar ao meu ambiente de trabalho.
    Tentando exemplificar sem querer ir direto aos extremos : Quem ou quais a minha volta sabem hoje de que “tribo” ou rede social são os cefalópodes? (talvez sendo injusto a uma “minoria” principalmente entre os mais jovens e ate’ “doutores” recém saidos dos MBA’s da vida).
    No meu dia a dia de terminais aeroportuários, olho em volta realizo que estou agora cercado por uma crescente geração aos quatro cantos do mundo (talvez excluindo hoje South Korea e China), que nem sabem que um dia existiu, ou ao menos o QUE E’ uma Barsa ou um “Tesouro da Juventude”, dezenas de volumes com aquelas capas de couro e filetes a ouro envolvendo uma sólida moldura de compensado naval, levando a durabilidade da descrição do olho da Lula ou do Polvo quase a eternidade. Pena que nunca manuseado talvez ate’ por nossos próprios filhos formados em universidades caríssimas…como diz o Beto Andrade, são coisas do tempo e da internet…o que seria então na hora de interpretar ou postar?
    Como sempre de Vc Beto, bela e curiosa observação. Congratulations again !

    • Julio, obrigado pelas tuas palavras generosas. De fato me preocupa a forma como o conhecimento está se reconstruindo no mundo online. Obviamente vejo muitos pontos positivos na sociedade em rede, principalmente os que dizem respeito à velocidade na troca de informações e a queda de algumas barreiras de comunicação. Mas o conhecimento em si, respaldado pela formação técnica, pela leitura, pelo ensino fraternal familliar e pela troca direta de experiências, este não se reflete na internet, pelo menos nas redes sociais.

  2. suzana naiditch disse:

    Beto, gostei muito de ler o teu blog. Está aí, sempre atento e inquieto, o velho Beto da Fabico (que fim levou aquela moto branca de tantas caronas??). Acho que todos da nossa geração percebem essa lacuna, essa simplificação que prolifera nas redes sociais. Mas uma coisa eu te digo que não mudou: o velho ranço maniqueísta, todos nós conservamos (tu, inclusive. Eu tb.), em maior ou menor grau, e aparece cada vez que julgamos ridícula a opinião de quem pensa diferente de nós. Claro que, muitas vezes, pensam diferente por falta de informação, por ignorância ou má fé. Outras vezes, simplesmente pensam diferente. Como tu bem lembraste, especialmente no caso das ideias e opiniões sobre política, religião e futebol. Feliz 2013. Vou acompanhar teu blog. Sem deixar que tua opinião se transforme em sentença. Beijo

  3. também gostei e aplaudo o gesto a palavra a opinião a visão a forma .
    É do carvão que nasce o diamante.
    Aquilo que penso ou sinto é minha percepção. Mas há outras maneiras de sentir e ver as mesmas coisas.
    A meditação é o início desse ponto de vista novo.
    Deus te ilumina com sua graça quando você relaxa e confia”.
    1 mestre iluminado vê a vida com uma grande brincadeira cósmica.
    obrigado pela existência .
    Cláudia

  4. edcanto disse:

    Ótimo texto, me lembrou inclusive que eu mesmo já deslizei no ponto cego. A Internet, eu acho, está vivendo a transição da infância para a adolescência, temos muito chão pela frente para aprender a utilizá-la com mais proveito.

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